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Gordura no fígado: o que é, por que aparece e como reverter

Gordura no fígado (esteatose, hoje chamada DHEM ou MASLD): o que é, por que aparece, como investigar e quanto emagrecer para reverter.

Gordura no fígado: o que é, por que aparece e como reverter
Imagem ilustrativa

O ultrassom foi pedido por outro motivo, e no laudo aparece uma frase curta: "esteatose hepática". A pessoa não sente nada, não bebe quase nunca e, por isso, acha que não deve ser importante. No entanto, essa frase, que muita gente conhece como gordura no fígado, costuma ser um dos primeiros sinais de que o metabolismo está pedindo atenção.

O que é gordura no fígado

Em termos simples, gordura no fígado é o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, revisada em 2024, considera-se doença quando a gordura passa de 5% do fígado. Em muitos casos, ela fica só como acúmulo, chamado esteatose. Em parte das pessoas, porém, a gordura provoca inflamação, chamada esteato-hepatite, e com o tempo pode levar à fibrose, que é uma cicatriz no fígado.

Além disso, o quadro quase nunca dá sintomas no começo. Por isso, ele costuma ser descoberto por acaso, num ultrassom ou num exame de sangue com enzimas do fígado alteradas.

O nome mudou: por que isso importa

Em junho de 2023, um consenso internacional de sociedades médicas mudou o nome da doença. A antiga "doença hepática gordurosa não alcoólica" passou a se chamar doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, em inglês MASLD. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Diabetes usa a sigla DHEM, de doença hepática esteatótica metabólica.

A mudança não é só de nome. Ou seja, antes a doença era definida pelo que não era (não era causada por álcool). Agora, ela é definida pelo que é: gordura no fígado junto com pelo menos um fator de risco cardiometabólico, como excesso de peso, cintura aumentada, açúcar alto, pressão alta ou triglicérides alterados. Dessa forma, o nome deixa claro que o fígado faz parte do mesmo problema que envolve o peso, a insulina e o coração.

Quanto ela é comum

Além disso, a gordura no fígado é muito frequente. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes cita que ela atinge cerca de 30% da população adulta do mundo. No Brasil, a coorte ELSA-Brasil, que acompanha mais de 10 mil adultos, encontrou a doença em 33,4% dos participantes. Entre pessoas com diabetes tipo 2, por sua vez, a frequência é ainda maior, perto de 69%, segundo a mesma diretriz.

Além disso, a doença está crescendo. Uma meta-análise de Younossi e colaboradores mostrou que a prevalência mundial subiu de cerca de 25% no período de 1990 a 2006 para cerca de 38% entre 2016 e 2019.

Por que ela aparece

Na prática, o principal motor é a resistência à insulina. Quando a insulina não funciona bem, o corpo passa a guardar mais gordura no fígado e, ao mesmo tempo, o próprio fígado gorduroso piora a resistência à insulina. Por isso, a doença anda junto com:

Ainda assim, pessoas sem excesso de peso aparente também podem ter gordura no fígado, sobretudo quando há gordura concentrada na barriga ou alteração de glicose.

Como se investiga

Encontrar gordura no fígado é o começo da investigação, e não o fim. Por isso, o mais importante é saber se já existe fibrose. Para isso, a diretriz brasileira recomenda, para todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2, o cálculo do FIB-4, um índice feito com idade e exames de sangue comuns.

Resultado do FIB-4O que significa
Abaixo de 1,3Fibrose avançada é pouco provável.
1,3 ou maisRecomenda-se a elastografia, um exame que mede a rigidez do fígado.

Da mesma forma, a diretriz europeia de 2024, das sociedades de fígado, diabetes e obesidade (EASL, EASD e EASO), recomenda esse caminho em etapas: primeiro um escore de sangue, depois um exame de imagem quando necessário.

Dá para reverter? Sim, e a meta tem número

Por outro lado, a boa notícia é que o fígado responde bem ao cuidado. Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, a perda de peso tem efeito proporcional:

Perda de peso mantidaEfeito esperado, segundo a diretriz
3% ou maisJá melhora o acúmulo de gordura.
5% ou maisReduz a inflamação e estabiliza a fibrose.
7% ou maisPode resolver a doença em 65% a 90% dos casos.
Mais de 10%Associada a resolução em 90% e regressão da fibrose em 45%, em um estudo de referência.

Por isso, a base do tratamento é a mudança de estilo de vida, com alimentação ajustada, atividade física e cuidado com o sono. Além disso, a diretriz europeia de 2024 cita que remédios da classe das incretinas podem ser indicados quando há diabetes tipo 2 ou obesidade, e que a cirurgia bariátrica é uma opção em casos selecionados. Ainda assim, qualquer medicamento só deve começar com avaliação e acompanhamento médico.

Perguntas frequentes

Quem não bebe pode ter gordura no fígado?

Sim. A forma mais comum hoje está ligada ao metabolismo, e não ao álcool. Por isso, o nome atual fala em disfunção metabólica.

Gordura no fígado dá sintoma?

Quase nunca no começo. Em geral, ela é descoberta por acaso num ultrassom ou em exames de sangue. Por isso, quem tem fatores de risco deve ser avaliado mesmo sem sentir nada.

Quanto preciso emagrecer para melhorar o fígado?

Segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, perder 3% do peso já melhora a gordura, 5% reduz a inflamação e 7% ou mais pode resolver a doença na maioria dos casos. Ainda assim, a meta individual é definida na consulta.

Um aviso do metabolismo que vale ouvir

Em resumo, gordura no fígado é um sinal silencioso de que o metabolismo inteiro precisa de atenção, e não um problema isolado do fígado. A Dra. Juliana Munhoz, médica de família com foco em emagrecimento e saúde metabólica, investiga o fígado junto com a insulina, o peso, a pressão e o colesterol, porque é no conjunto que a causa aparece.

Fontes citadas

  • Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz: manejo da doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) no diabetes tipo 2 e pré-diabetes. Revisão de 2024.
  • EASL, EASD e EASO. Clinical Practice Guidelines on the management of MASLD. Journal of Hepatology, 2024.
  • Rinella ME e colaboradores. Consenso multissociedades sobre a nova nomenclatura da doença hepática esteatótica, 2023.
  • Younossi ZM e colaboradores. Meta-análise da prevalência global de doença hepática gordurosa metabólica.
  • Coorte ELSA-Brasil, dados de prevalência de MASLD em adultos brasileiros.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Não tem finalidade diagnóstica nem promete resultados individuais. Nenhum tratamento, medicamento ou suplemento citado deve ser iniciado, alterado ou interrompido sem acompanhamento e prescrição médica.