O peso sempre se manteve estável, sem grande esforço. Depois dos 45, ou dos 50 anos, a mesma rotina de alimentação e atividade física já não parece funcionar mais, a gordura se concentra na barriga, o sono piora, e o cansaço aparece com mais frequência. Isso não é impressão, é o metabolismo respondendo a uma das maiores mudanças hormonais da vida adulta feminina.
O climatério, em termos simples
Climatério é o nome dado à fase de transição hormonal que antecede e engloba a menopausa, marcada pela queda progressiva na produção de estrogênio pelos ovários. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), essa transição pode se estender por anos, com sintomas físicos e metabólicos que vão muito além das ondas de calor.
Por que o estrogênio importa tanto para o metabolismo
O estrogênio não atua só no ciclo reprodutivo, ele também é um hormônio metabólico. Entre outras funções, aumenta a sensibilidade das células à insulina e facilita a utilização da gordura como energia. Quando os níveis de estrogênio caem, esse suporte diminui, e o corpo passa a desenvolver um grau de resistência à insulina associado diretamente à queda hormonal, o que favorece o armazenamento de glicose em forma de gordura, especialmente na região abdominal.
Uma revisão de referência sobre o tema, publicada por Mauvais-Jarvis, Clegg e Hevener em periódico científico especializado em endocrinologia, descreve justamente esse papel do estrogênio no controle do balanço energético e da homeostase da glicose.
A gordura muda de lugar, e isso importa
Além do ganho de peso em si, o climatério costuma mudar onde a gordura se acumula, migrando da região do quadril e das coxas para o abdômen. Essa gordura visceral não é metabolicamente neutra, ela produz substâncias inflamatórias e está associada a maior risco cardiovascular e de diabetes tipo 2. As Diretrizes Brasileiras sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, publicadas pela FEBRASGO em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC), reforçam esse ponto como parte central do cuidado nessa fase.
Dados do Vigitel mostram essa tendência em números: a prevalência de obesidade entre mulheres sobe de 23,4% na faixa dos 35 aos 44 anos para 29,9% entre os 55 e 64 anos.
A massa muscular também entra na conta
A sarcopenia, a perda progressiva de massa muscular, se intensifica no climatério, o que reduz a taxa metabólica basal, ou seja, a quantidade de energia que o corpo gasta em repouso. Como o músculo é um dos principais consumidores de glicose do organismo, perder massa muscular nessa fase agrava ainda mais a resistência à insulina, criando um ciclo que vale a pena interromper cedo, e não só depois que o quadro já está instalado.
E os ossos e o coração também mudam
A queda do estrogênio acelera a perda de massa óssea, aumentando o risco de osteoporose, e altera o perfil de colesterol, elevando o LDL e reduzindo o HDL. São mudanças que reforçam por que o climatério pede um olhar clínico amplo, e não só um ajuste pontual na dieta.
O que uma avaliação clínica considera nessa fase
Um acompanhamento adequado no climatério olha para o conjunto: perfil hormonal, marcadores metabólicos, composição corporal, densidade óssea e qualidade do sono. A terapia hormonal é uma das ferramentas que pode ser avaliada pelo médico em casos selecionados, conforme as diretrizes mais recentes da FEBRASGO, sempre de forma individualizada, considerando idade, tempo desde a menopausa e histórico de saúde de cada mulher.
Perguntas frequentes
Toda mulher engorda na menopausa?
Não de forma automática, mas o risco aumenta, porque a queda do estrogênio favorece resistência à insulina e acúmulo de gordura abdominal, mesmo sem grandes mudanças na alimentação.
A reposição hormonal resolve o ganho de peso?
Não é uma solução isolada nem universal. É uma entre várias ferramentas que podem ser avaliadas caso a caso, dentro de um cuidado que também envolve nutrição, atividade física e sono.
Dá para evitar o acúmulo de gordura abdominal nessa fase?
Uma abordagem integrada, com avaliação hormonal, treino de força para preservar massa muscular, atenção ao sono e acompanhamento clínico contínuo, ajuda a reduzir esse impacto de forma consistente.

